Jurava a si mesmo ter tentado escapar da metódica, aquilo já lhe ia aos nervos, talvez se fosse indiferente ao menos uma vez... Rapidamente passou pelos cômodos da casa com suas luvas, cerrando a porta da sala chegou até o portão, porém, sentindo aquele cheirinho peculiar de terra fresca e olhando aquele preto, bem preto do asfalto molhado pela chuva que acabara de cair, não conseguiu (não podia), resolveu voltar, não se sabe o motivo, mas a bonança umedecida de chuva sempre lhe deixara emotivo com maior gravidade dos fatos, com a mesma mão (luva) abriu a mesma porta (sala), refez todo o trajeto (cômodo por cômodo) e chegou até quarto, a janela aberta emudecia-se pelo muro rente, ali, tudo já pairava pálido e abafado.
Ora, um assassinato é no mínimo íntimo, pessoal, sem exceções, por mais que não se conheça a vítima (ninguém é), um assassinato precisa de certa paixão (verdadeiramente, grande paixão pela obra) ou não passará de um ato artístico (ainda) meramente desperdiçado.
Olhou fixamente nos olhos esbugalhados da moribunda (ainda respirava e transpirava), conto lhes que era uma mulher e tão pouco desconhecida, sentindo o cheiro de toda aquela Arte que acabara de fazer, teve a certeza de que sua feição seria de fato a última fotografia antes do último piscar, sentiu-se feliz pelo feito, tão nobre, nobre e metódico, deliciava-se com a catarse que lhe tomava a alma (como sempre)... Graças!
Refez o trajeto, cerrou a porta da sala, passou pelo portão de grades, portãozinho baixo que fazia barulho, tomou a rua pisando com o pé direito em uma poça d’água, soltou alguns palavrões e de sobressalto e se tocou... Por aquele sapato molhado (meia que se tornaria barrenta até chegar em casa), já não era mais metódico, a paixão acabara, não era a mesma, maldita poça.
Extremamente emocionado, soltou algumas lágrima, acendeu um cigarro, seguiu em frente.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário