sábado, 25 de dezembro de 2010

Anjo do Fogo

Certa vez, em uma tarde de dezembro, quando todos tinham saído de casa e o silêncio era quebrado apenas pelo barulho do vento nas árvores da calçada, um carro ou outro que passava pela rua. Sentado na antiga cadeira que balançava, naquele vai e vem preguiçoso e aconchegante, alguns cabelos grisalhos se agitaram com a aragem fresca na varanda, de súbito levantei calçando os chinelos marrons e caminhei sem saber ao certo o que procurava, levado mesmo por uma espécie de instinto, olhei por cima do muro e lá estava quem me esperava... O sol, tão vermelho se pondo com todo seu cansaço de mais um dia que tinha regido, tarefa difícil em fazer com que um dia nunca seja de longe parecido com outro.
Encontrei-me, ali em pé me banhando de por do sol, Eu me encontrei! E era tão lindo aquele momento existencial, momento que senti até a importância que as cutículas roídas exerciam sobre minhas unhas, momento em que se da conta do Tempo, naquele segundo eu pude ouvir nítido, perfeito o ruído do mundo, meiga melodia de como todas as coisas sucedem e sucedem e sucedem...
O Anjo do Fogo ainda queimava dentro de mim e nada ao redor era o mesmo, pelo vermelho cansado do sol, tudo indiferente... O nascimento do Menino Jesus, as músicas que ainda podia ouvir, as outras faces que podia recordar ou mesmo as mortes que ainda podia chorar...
As chamas ardiam copiosas nos meus ombros brancos, tive certeza que jamais cessariam, sorri tão feliz, aquele sorriso que não se mostra os dentes e muito menos emite qualquer grunhido, aquele sorriso era por ser também tudo aquilo, e respeitei tudo aquilo, como se respeita pai e mãe... Deus.
Pela primeira vez comunguei com o cansaço do sol que me levou a Deus, senti sua solidão, e ainda feliz, me doeu tão fundo o peito.
-Estamos afastados de Você e Você chora sozinho debruçado em seu trono de mármore, sem cessar.
E nossos cabelos tornam-se grisalhos (Você se debruça e chora), cadeira de balanço geme (e Você se debruça e chora), o ruído o mundo canta ao por do sol vermelho... O bater das asas do Anjo de Fogo em plena comunhão.
E Você sozinho sentado em seu trono de mármore, se debruça e chora.
Já era quase noite, dou as costas ao último clarão já pálido do sol, entro arrastando os chinelos marrons para dentro da Minha Casa.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Yes, temos banana pra dar e vender!

Com o caos regendo tantos conflitos... Brasileiros elegendo comediantes para nos governar, AIDS matando como nunca enquanto fingimos ser um problema (“já superado) dos veados da década de 80, “guerra civil” no Rio de Janeiro (e isso já faz tanto tempo), a cultura empobrecida aos extremos, ao ponto de dividirem a verba das poucas leis de incentivo entre cultura e esporte (Oba! Olimpíadas e Copa do mundo).
O Brasil inteiro cada vez mais a venda na Feira de Santana (“Yes, temos banana pra dar e vender), nossa água, nossa madeira... Nossos recursos.
E o que fazemos além de chapear o franjão, discutir o quanto Lady Gaga e inovadora, o quanto o Pânico na TV é “foda”, encher Restarte de “mai$” grana (música de qualidade, comprem o original, nada de baixar na net, piratear somente Chico, Lenine, Nana Caymmi, afins...)?
Honestamente, onde nos perdemos?

domingo, 14 de março de 2010

Wonderland



Deixe pra trás tudo o que não pode carregar
E seus sonhos colorir-se-ão no cotidiano
Esqueça a queda
Já estão todos lá atrás e nunca vão lhe alcançar.
Olhe, você conseguiu passar pelo buraco da agulha
Agora esqueça a queda
As bulas, os elefantes e suas patas...
Descanse.
Aqui todo o tempo é bordado por nós,
Respire!

Suas músicas estão separadas
Sua cama e sua razão
Todos nós fomos escolhidos por você
Os que ficaram com Mr. Tambourine
Foi por merecimento
E logo suas vozes calar-se-ão na sarjeta da lembrança
Só machucas quem ama, não é?
Vamos começar colorir isso com seus sonhos.

Um chá?
Qual cor?
Sabor?
Qual odor?
Você pode, você deve se aquecer
E lembrar que o tempo frio passou
Estou vendo seus pensamento, menino!
Tudo parece ter sido tão pequeno e rápido
Perto de toda essa imensidão, não é?

Da loucura não te convenceram,
E agora são eles que estão presos lá,
Na sua mente.
Aqui só os sonhos bons te acompanham
Não te convenceram a ceder ao vazio
E toda aquela queda, os rochedos
As vasilhas sujas e sem tampas
Os elefantes girando...
Tudo foi tão diferente.
É, agora pode sorrir, menino!

Nossa alma é a união de tudo que esboçou
E não coloriu,
Deixou para trás o que não podia carregar
E estamos juntos.
Deixou os gritos, os soluços
E toda a violência, os murros na parede
As janelas batendo incontida pelo vento

Tudo aquilo era uma droga para você.
Agora é só descansar,
Esse sempre foi seu mundo
Lembra-se?

Suas musicas estão separadas
Sua cama e sua razão
Todos nós fomos escolhidos por você
Esqueça a queda
Da loucura não te convenceram
E tudo foi tão diferente.

Lembra-se?

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Peste


Esperei que me aconchegasse ainda
Em teus alvos braços
Mesmo que seus punhos sangrassem,
E se uma pequena gota de teu suor caísse
Banhar-me-ia nela
Ou se teu olhar dirigisse-se a mim...
Voltaríamos juntos para casa...

A peste assola
E não vejo mel em nenhum lábio
Estão todos escondidos de ti
...corrompidos
Contaminados
Teimo, mas e não lhe encontro.

Caminhei nas ruas da miséria
Em cantos escuros e esquecidos
Nas ruas sem asfalto
Encolhendo-me ali sentiria medo,
Exaustão e lágrimas desidratadas...
Não lhe encontro.

Busco noite após noite
Imploro
E não encontro
Corto-me
E não encontro.

Tento me render às paredes
De concreto...
E não me amparas em teus braços
Não me banhas em teu suor
Não olhas mais...
Se esquece.

- Não vêem quão estamos doentes,
Quão somos iguais?

De alma e também alma entregue a peste
Procuro e não me refaço...
Todos arrancando cascas de suas próprias feridas
Com a mesma voracidade que as devoram
Todos...
Todos os meus irmãos.

Teimo... E não lhe encontro.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Aos Ratos

Aos Ratos

Andando,
Ofegando no mesmo caminho curto,
Mesmo sangue
Fazendo o zigi-zage
De quem luta pelos batimentos cardíacos
nenhum band-aid
Sangue que mata e salva gente...
Igual.
Mesmo molde, ar, mesmo equilíbrio nas pernas bambas.
(sua pressão tão baixa)

Guilhotinar os pensamentos?
Mudá-los, muito menos.
(num samba de bamba valeria à pena).

-Francamente,
Pena fraterna e nem um pouco obscena
De quem sob pressão é coagido
A dar costas aquilo que acredita.
A mesma velha cartinha, a mesma velha tabuada!
O mesmo mesmo mesmo... “Sim Senhor!”
(Os anos não passam)
Ainda que tentem atrofiar meus pulsos e massa cefálica,
Acredito e assim vou indo até o fim!

Somos iguais (minha gente!),
Ainda, Livres,
Cada qual com seu credo
Qual com sua prisão
Sua Pensão
Depreciação.

Somos livres
E ridiculamente iguaiszinhos,
E não mendiguem que deixe de pensar
(brincadeira de criança no primário)
Nem me condicionem a seus penteados
E vácuo cerebral
Não, não matem Chico Buarque, por favor!
Não me matem
Só, só isso.
Minha é a opção, minha é...
Só minha,
Intima... Tal qual genitália Protestante, Católica ou Kardecista...
(Escondida, castrada... Fim do mundo, meu Deus!).

A opção é minha
Os “direitos” também.

Pobres ratazanas
“urbanizadas”.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Alterego

-Por favor, Janete, tire essas tranqueiras cheias de pó da minha
frente, a alergia, não lembra, esqueceu?

(Janete arregalando os olhos)

-Deixa de ser reclamona, anda logo com isso, personificação da
inércia retroativa humana eficaz!

(Janete arregalando os olhos mostra-se impaciente)

-Quero tudo limpo demais, tudo brilhando demais... Ah como quero,
quero em apenas cinco, cinco minutinhos ou além de te demitir, excluo do Orkut
e também do MSN, Myspace, Twitter, Facebook, Last FM, Blog e Afins ... Ahhh e
ainda por cima não atendo mais uma ligação, olha, nem uma ligaçãozinha vinda
desse seu celularzinho prateadinho com vermelhinho, multifuncional do Paraguai,
isso pega até TV a cabo, armamento pesado!

(Janete arregalando os olhos se mostra impaciente e começa choramingar)

-E não se esqueça de ir à feira, hoje quero uma salada, saladinha,
mas bem, bem fresquinha, nada de comida industrializada, esses enlatados, ai ai
desses enlatados viu...
Janete, estou subindo, faz tudo direito, di-rei-ti-nho... Ta bom,
meu floquinho de neve!?

(Janete fica estática)