sábado, 5 de dezembro de 2009

O Observador

Nada muda,
O rumo é o mesmo, pálido e pedras de pontas afiadas.
Continuo o mesmo
Com o vento soprando o vento e o tempo,
Cata-vento.
Eu, na mesma condição.
Parado, olhando de cima...
Os carros passam,
Passam as horas
E as cores do dia,
Buzina,
Faixa de pedestre,
Camelôs,
Cocada branca,
Choro de criança birrenta
(que leva tapa na bunda em ponto de ônibus).

O grande olho,
Esférico,
Esbugalhado, com veias latejantes, pupila e íris negra...
Só ele...
Ele só,
Sozinho.
Preso no meu tempo,
A mim mesmo,
Retorcido na carne que resta,
Na gordura que é pouca,
No cordão umbilical que nunca será rompido.
Acorrenta,
Um único cadeado para milhões de chaves diferentes,
Roleta russa.
Sufoca,
Observa.

Dia,
Meio dia,
Noite inteira.

Na última madrugada
Ele observava do canto esquerdo do quarto,
E o que tem de mim que não é corpo
Podia ouvir suas risadas,
Lia meus pensamentos que andavam submersos, vagantes
(campo de futebol sem grama, descalço, camiseta do flamengo).

O olho, o maldito olho, ria das reminiscências...
Gritos na madrugada, batidas de porta de aço, frio do concreto fundido.
Riso torpe.
Remoia o passado quase como um bovino remoendo capim.
Observava as rugas, os fios brancos,
O formato do rosto que já não é o mesmo.
O que decai...
E ria...
-Meu Deus, como ria!

Olho que observa da lateral esquerda do quarto de dormir
E está dentro de mim.

Não adianta
Fuga alucinada,
Lâmpada mais forte,
Mudar cor dos cabelos,
Fazer trajetos diferentes,
Trejeitos diferentes,
Beijar bocas de outras salivas...
Ele sabe.
E como a madrasta má, vigia!
Sempre rindo, dando gargalhadas nefastas,
Observando lateralmente minha carne, ossos, sangue, excrementos...
E alma.

Alma?
Se ainda tenho a tal substancia translúcida,
Ele vê
E nunca afirma.
E a dúvida me deixa desperto
Durante a madrugada,
Dia e noite,
Enquanto ele vigia,
Cobra... Sorri... Gargalha!

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