sábado, 31 de março de 2012
Olhos Pretos
Lave a boca antes de confessar seus pecados.
Conte até três e respire.
Você sabia o tempo todo,
(Quanto lixo transbordando pelas laterais
da cama de lençóis brancos, toalhas empacotadas)
Pingava mel de seus lábios feridos,
Pendurava a lua no céu com suas mãos sujas de pó,
Como bússola para seu coraçãozinho partido
Quebradinho em pedaços infames.
Se um batalhão batesse em minha porta
Enquanto falávamos sobre o que não se fala,
Nunca te delataria como o vil amigo,
Eram pretos teus olhos
e açucarados teus sonhos esdrúxulos...
Ah, e como eu comia deles, como me fartava
Mastigando frases feitas, mentiras sacras.
Lavem as bocas antes de confessarem seus pecados.
Degustávamos furadan em taças de cristal barato
Com champanhe, igualmente barato, brindávamos um espaço preenchido com estrume emocional, entorpecido, emocional.
Estive de pé sem deixar meus joelhos se cansarem
Enquanto minha mente era roída por seus vermes psicológicos.
Agora está pelado, nu, como um baitola saqueado com dedos
Por um caminhoneiro velho e imundo, num escurinho qualquer.
Oras! Deveríamos ter tirado nossa roupa juntos,
Deveríamos ter maculado a capela de santos segredos,
deveríamos ter ido a bordeis com os corpos a venda,
deveríamos ter nos deitado com os sentimentos profanos
Para agora sermos algo, algo apenas, apenas que se explique.
Tentei te prender, te aprisionar para que não se lavasse,
Te quis sujo para que aos meus olhos estivesse limpo e são.
A chuva cai enlouquecida, berrando a desordem!
O barro preto da verdade escorreu por seus cabelos, também pretos, cartões telefônicos, seu nariz, casas vazias, misturou-se o barro preto ao mel de sua boca, inundou a cama que dormia, estragou a comida que se alimentava, desfez as cartas e todas as promessas, deslizou por entre suas pernas, ainda belas, e encharcou suas notas de mil réis pelo chão,
Senti pena e amargura quando nelas escorregou, tentando apoiar-se na parede também escorregadia, batendo abestalhado com a cabeça.
Pena.
Ainda está sendo um tombo patético, não?
Não tente conter o peso que não suporta, anjo!
A noite é muito pesada para os ingratos e mentirosos,
Ontem, anjo, você deixou cair uma noite por todas as outras noites
Olho por olho
Dente por dente...
Você esta feio, anjo, limpe o nariz, cole suas asas
Com super bonder e tente voar, mas cuidado com a altura do precipício.
Ainda está sendo um tombo patético, não?
Não confessarei mais meus pecados antes de lavar a boca.
“Nosso” vomito é sua hóstia.
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