Na primeira pessoa
Calculando os dias como
Comprimidos de uma cartela
Esperando que as trevas se dissipem
E que em um único segundo
As estrelas troquem de lugar
Deixando tudo de pernas pro ar,
Tudo claro e brilhante,
Como antes da neblina
Que sufocou nossos corações
E ludibriou nossos ideais
Com seus olhos e língua de fogo
(Tanta gente desgarrando-se das mãos)
E os comprimidos estão acabando
Como as falsas promessas.
O dia afastando-se de mim
Desde o alvorecer até o entardecer
Tudo com certo ar condicionado
Esperando por alguém que se foi,
Que seja um cometa
Ou um ombro qualquer
Ansioso que a víbora surda se canse
E eu possa ouvir de novo aquelas cantigas
Lembrar-me da última manhã
Lembrar-me daquela manhã do ano passado
Lembrar-me...
Continuo na prisão,
Sentindo seu frio,
Segurando nas grades
Vejo tudo nublado lá fora
Calculo os dias
Como comprimidos de uma cartela
E os sonhos que continuam inúteis.
Preciso ultrapassar a luz,
Preciso de alguém que abandonei
No caminho até aqui,
Que deixei de lado,
Como a criança que encontra novo amigo
E esquece de alguns brinquedos
Ao relento,
Preciso ultrapassar
Apostar corrida
Ir até adiante
E deixar os dias seguirem
Trépidos como uma carruagem
(que tem rumo certo)
Na estrada de terra.
E todos os comprimidos
(como um colar de pérolas arrebentando)
Caindo no chão
Soltando-se da cartela
Varridos...
Preciso ultrapassar a luz
Para encontrar o alguém que abandonei
E voltar a brincar
...Tudo claro e brilhante.
domingo, 6 de dezembro de 2009
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