segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Feliz Ano Bom

I

Por baixo de escombros, mutilados e carbonizados, perdendo a vida de gota em gotas, o Homem reconhece o Homem e instintivamente se torna bom... Ajuda, arrepende, ama, sente saudade, manda missivas de perdão ao filho pródigo...
Existiria então o que chamamos de liberdade, livre-arbítrio ou uma grande conspiração para que no final não houvesse escolha?
Concluo, somos marionetes de uma grande carnificina sádica e constante, personagens do espetáculo de platéia avessa em nós mesmos.
Estamos fadados ao vício e a virtude, fracasso e sucesso desde que nascemos para o entretenimento do que chamamos de caos, continuidade.

II

Todos procurando uma direção, uma forma de salvar-se das chamas do cotidiano.
O cheiro de zinca da mobília pobre ronda aqueles, enquanto outros se debruçam em pias de mármore em intermináveis carreiras, outro, tentando esquecer a falência financeiramente e moral nos dois e cinqüenta da cerveja barata e no Hollywood Vermelho do final da tarde, (sorriso) todos ao meu redor, tudo pegando fogo (do alto um circulo de chamas azuis, todos no centro) de alguma forma tentando se salvar, enquanto eu, do mesmo modo me atiro desesperado em busca de poça d’água ou barro para apagar as labaredas corruptas do calendário que se finda.
Alienados como besouros se debatendo contra a lâmpada fluorescente, livres em praça pública (toscamente iluminada para o feliz natal), o espaço de luz na lâmpada é tão pequeno que alguns são facilmente descartados, pobre besouro morto de barriga para cima.
Sobram os cheques sem fundos e as roupas da última estação, sobram às intenções do “quem sabe”, sobram os projetos de bela capa e pouca estratégia, sobramos nós, eu e meus amigos, meus espectros íntimos ainda a abastecer o que seria ego e é o que sobra, indignamente...
Vampirizando nos últimos dias do ano, sorvendo as migalhas que sobrou do fracasso de cada tentativa bem intencionada ou não, esperando o momento exato de esquecer, de passar o véu e trocar o par.
Apenas um clã, mais um clã, solto nas ruas, em auditórios vazios e sem aplausos, somos uns poucos dos infinitos outros que existem com a calculadora na mão e os olhos (sem brilho) voltados para futuro que é igual.
Enquanto Paris estiver pela última vez em chamas, vejo (do centro chamejante) os que ainda podem partir, os que ainda podem pintar outra mascara e se atormentar nos malabares frenéticos, nas pirofagias lunáticas que os conformam, que dissimuladamente brindaram na festa de Ano Bom, os que voltam para dentro da casca do ovo e os que de longe, tão fracassados quão, voltam com sorrisos amarelados.
Tudo pegando fogo!
Eu, meus melhores amigos e todos os outros.

III

E a clara manhã sorri
Com as fúcsias da noite passada,
Como a gota orvalhada que escorre
Pelo liso da folha que triscas com a cabeça
E derrama na fronte.

Nas léguas perdidas e quase sem fim;
Dará rumo judicioso para o alento,
Alento que não conformas,
Mas que lhe atravessa furioso
Tal qual lança afiada
E precisa.

É o rumo sensato que tomas agora,
Ainda que no peito as flores dos amores
E dúvidas febris desabrochem,
De certo o rumo levar-lhe-á pelas montanhas maternais,
Passando por penhascos de paternas encostas
E mares de lágrimas fraternais
Que beberás mais tarde,
Sem mais soluço,
Até chegar ao seu antigo condado de novas estradas,
Com outros rumos de novos amores, novas esperanças
E novos rumos.

Na longa estrada nada se perde,
Nada é deixado para trás,
Pois dos rumos pouco sabemos...
Muito pouco sentimos,
Nada prevemos...
Simplesmente os tomamos.

IV

“Hoje quando estava indo embora, meus olhos fitavam cada pessoa que chegava na estação, na esperança que uma delas fosse você... Ao ouvir o ronco do motor, meu coração se lançou pra fora... E me disse que era seu demais para partir comigo... Estou parado em mais uma estação, ainda tenho muito a percorrer... Mas vou com a esperança de um dia reencontrar você e o meu coração...”

V

Um coração pode se partir e continuar batendo igual.



FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!

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