sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Relinchar das Maçãs

Arame farpado,
Aprisionado ao corpo leito que de mim já não é
cravando fundo sua cifra,
Ferro em brasa,
Gotas de saliva destiladas do erotismo
Que transpiras...
Transpiro,
Ofego e retenho
Num só suspiro,
Violência anímica de quem pela existência...
Goza e passa.

Transtornando amiúde as palavras,
Ladainhas e murmúrios
Exalando do interno da cela,
Contínuo.
Do externo...
O relinchar,
Único.

Agora...
Adule com as mãos calejadas
O que sobra de mim,
Adule com a pele áspera
O que sobra em mim,
Com as esporas de cravos armados
Exerça o anseio latente que o corpo não nega
Imploro, me sujeito
O rubro que goteja sem mais demoras.
-Quem se humilha não estará humilhado
E ainda, se humilhado for,
Guarde o acúmulo,
Para o final.

Não é potro viço quem suplica,
Quem suplica é a mulher do sapateiro
Que foi pra guerra e não mais voltou
Medíocre, se quer amputado.
Quão caridoso teu sexo,
Quão caridosa tua lúgubre vontade
De quem não ama
Domina, exerce...
Enxovalha.

Arranque a venda encouraçada dos meus olhos,
Deixe que minha fronte conheça o som
Do que choca ao chão,
Hematomas guardarão ainda, por tempo determinado,
O que é teu
E que ainda ficará...
Pouco,
E é tanto.

Por baixo da unha,
Cravo afiado.
Quebremos o breu,
Se esconder?
Nem sempre,
A claridade em hora destas,
Viola tantas vezes mais
Que os escabrosos ruídos nus de machadadas cruas.
Arranque uma de minhas córneas
Para que possamos nos ver de cima,
Quebre o espelho para que possamos nos deitar.

Depois...
Não transtornarás palavras,
Nem ladainhas, nem murmúrios.
Quando lhe der as costas
Nada mais sairá da cela.
De fora o relinchar
Esvair-se-á em trote largo,
De dentro, o rubro banhará as quatro paredes,
Teto,
Assoalho.

Com o sêmen do cavalo que galopa
Embrenhado na mata densa,
Regarei o que é nosso,
E que não mostraremos a ninguém.

No corredor, os passos...
Passos largos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Singelo Poema de Amor

Amei de forma medonha,
De forma desesperada aquele corpo...
Aquele esqueleto com carne e pele branca impregnada
Um cérebro incomum (sorvete de creme as quinze horas, trinta e cinco graus),
Olhos tão vivos de pupilas sempre tão dilatadas.

Amei aquelas idéias
Mentiras viscosas
Num corpo tão magro,
Sexo tão rijo
Nunca descoberto.
Naquele corpo, veias salientes
Faziam estradas, encruzilhadas visíveis rumo...
Não sei onde...
Não me importa onde.
Virilidade latente
Feminilidade de gestos contraditórios
(nada mais delicado que nariz gotejando sangue).

E uns poucos vagabundos, pseudo-intelectuais
Contradizem o amor!
Como não amar aquele corpo tão meu?
Como não beijar com agonia moribunda
Aquela boca tão seca, amarga, macia?
(As maçãs são vermelhas e doces)
Como não lambuzar-me com total luxúria Sadiana
Daquele sexo pueril.
(Crianças, não cresçam!)
Homens de esqueleto, carne, pele branca,
Cérebro, olhos, idéias e sexo pueril...
Bem branco e pueril.

Não contradigam o amor,
Ainda que dele nada mais sobre
Que a crua distância,
Caluniosa falta de verdade.
Não contradigam... Façam de tudo,
Menos contradigam.

Quero descer pelo jazigo frio
Ser comido pelos vermes famintos,
Ser transformado em lama, lodo... Pó, muito pó!
Quero descer ao túmulo em noite escura
Abandonem meu fardo na escuridão
Para banhar-se na luz da manhã.
(pedido honesto para familiares, inimigos e até mesmo desconhecidos).

Que esse amor medonho parta sempre sem aceno.
Sempre nas primeiras horas...
Nas horas em que durmo.

Serei sempre o gênio de idéias roubadas
O pedófilo de adultos pueris
Amarei...
Com lama, lodo e pó...
Muito pó.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Entre os Astros

“O homem criado do pó ao pó voltará"
A musa, deixando de ser orgânico,
Abandonando a estética de existir,
Estendida em lençóis de cetim.

Os móveis da sala
Empoeiram-se...
A cortina branca, suspensa por ti,
Oscila ao vento que escapa da fresta
De uma janela, ali.
Os penduricalhos no mancebo,
E todo o resto
Estará lacrado em
Caixas para viagem...
Viagem fora dos planos,
De profundo silêncio.

Enquanto a bailarina triste rodopia
Na memória parca,
No céu, entre as estrelas,
Cantará para os astros mágicos
A primeira canção.

E entre os edifícios,
Aqui, sob as nuvens baixas,
O sopro vazio da ausência
Discursará em prosa
Na boemia nossa
De cada noite
(Para seu rebanho, noite para sempre)
Até que termine
A primeira canção
Entre os astros...
Sutil bailarina,
Sutil cantante,
Não ouviremos os aplausos
Para ti.

Pálida e gélida rosa,
Pela eternidade, cante e rodopie.
A diabética semente
Estará semeada ao chão
E brotará na memória
Dos que aqui ainda assentam-se
E conformam-se.

domingo, 15 de novembro de 2009

Intacta a Fotografia

Um dia jogarão minhas cinzas sobre o mar
Mas por enquanto,
Quero ver o sol numa manhã de inverno
O futuro distante nas pegadas dos anos que passaram
O perfume por baixo de seus cabelos,
E entendo o amendoado dos seus olhos.

As vozes gorjeiam presas em cada sombra
Você faz tudo tremer por dentro
E esquecer
Inevitavelmente... Esquecer.

Certa manhã meus olhos estarão vítreos
(os mortos sempre partem com certa inveja dos vivos)
Guardando intacta sua fotografia
A tarde (pôr-do-sol vermelho) cinzas jogadas de uma aeronave sobre o mar...
Seu perfume envolvendo
Todo o precipício
E as ondas refletindo cada linha do livro d'minha vida
-Amada, não se jogue
nas águas turvas!

Por enquanto,
Deixe o sol brilhar na manhã de inverno,
Deixe o perfume por baixo de seus cabelos
E entendo o amendoado dos seus olhos.

sábado, 14 de novembro de 2009

In The Aeroplane Over The Sea

Fiz sete curvas de olhos cerrados
Fingindo abrir três janelas
Notando tudo empoeirado, daquele tipo de poeira preguiçosa
(impregna e mata)
-Oh, Pobre homem que perdeu o coração,
Pobre homem que depende da infelicidade alheia para sentir-se vivo
Do que perguntei, coisa nenhuma contou novidade...
Nem os livros no chão, tão pouco os fragmentos de tantos mundos
Tudo com peculiar perfume de ontem
Cheiro do fantasma de quem não morreu.

Fiz sete curvas de olhos cerrados
(fora do aquário nada sorria)
As lágrimas confundiam-se com as águas
Do mar de Copacabana
(In The Aeroplane Over The Sea)
E tudo era agonizante
A quebra do mar na praia
O seu ruído...
Eu a areia na garganta
(também nos olhos)
Eu a mercadoria e o preço
Eu onipresente.
-Feliz de quem se quita
Nada deve.

Fiz sete curvas de olhos cerrados
Em pleno planalto
A morte sorriu para a vida
E a vida furiosa
Varreu todas as largas e molhadas avenidas
Grandes monumentos da corrupção
Varreu os cafés e pêlos pairando soltos no ar
Refez as curvas
E o sangue pulsou violento por ela própria,
Vida.

Refiz sete curvas de olhos turvos
E tudo restaura
Sem plano piloto, no piloto automático
Com a saúde de quem pode chorar
E até mesmo se arrepender
Se embaralhar nas dúvidas da própria alma intocável
Fazer sol e lua das emoções
Eis, a “inocência e bondade de coração”!

O não é tragicamente mais belo que o sim.